É, 600km de bicicleta, em menos de 40 horas.
Falando assim parece coisa de maluco, de mentiroso ou das duas coisas...
Para quem caiu nesse blog por acaso (possivelmente procurando algo a respeito do livro "O Hobbit") tratou-se de uma etapa de uma modalidade de ciclismo, de longa distância, chamada audax.
Tem que se virar na estrada se tiver algum problema mecânico, incluindo, mas não se limitando, a furos nos pneus, e carregar na bike tudo que eventualmente precisar.
Não é uma prova competitiva, ou seja, não tem primeiro, segundo, terceiro lugar... Mas o ciclista tem que terminar a etapa dentro de um tempo mínimo, fixado com base na média mínima de 15 km/h.
Os Randonneurs (ciclistas que praticam essa modalidade) usam coletes refletivos e são facilmente identificáveis.
Nas etapas mais longas são encontrados dormindo em postos de gasolina, restaurantes de estrada e demais lugares onde seja possível descansar:
| "Praticamente um sem-teto, mas usando roupas menos apropriadas" (via Mamede) |
Na série do audax temos, dentro de um mesmo ano, etapas de 200 kms, 300 kms, 400 kms e 600 kms (mais apropriadamente chamadas de “Brevets Randonneurs Mondiaux” ou BRM).
Quem completa todos esses brevets, no mesmo ano, recebe uma distinção especial, a medalha de Super Randonneur.
Esses nomes são todos em francês porque a autoridade máxima da modalidade é o Audax Club Parisien (ACP).
As medalhas oficiais de cada brevet, inclusive a de Super Randonneur, vem todas da França, mesmo que a etapa seja realizada em outro país. (Oui, mon ami, très chique!)
Enfim, é uma maluquice bem organizada.
E na série do ano de 2013 eu já tinha feito quase tudo que precisava para conseguir a medalha de SR (Super Randonneur).
Fiz dois brevets de 200 (Holambra e Queluz), um de 300 (Boituva) e um de 400 (também Boituva).
Faltava "apenas" o brevet de 600km.
A PREPARAÇÃO:
Fazer a série é a melhor preparação possível para o 600km.
Entre o 400 e o 600 tivemos menos de um mês, então a preparação física foi basicamente manter o volume de pedal que vinha já mantendo durante todo o ano, cerca de 200km por semana.
Minha receita básica:
- 60 km durante a semana, indo e voltando do trabalho.
- 140 km restantes nuns giros mais longos de fim de semana.
- Não ficar nenhuma semana sem pedalar, exceto em caso de doença brava (preguiça não se incluí nesse conceito).
- Em caso de chuva ou falta de tempo para pedais mais longos: sofrer no rolo de treinamento.
Em suma, manter um bom volume de pedal, durante uma sequência contínua e razoável de meses, faz maravilhas pelo rendimento na longa distância.
O esquema é tentar observar a famosa regra do nunca três: nunca três dias sem pedalar e nunca mais de três dias pedalando direto. Intercalar pedais mais fortes com um ou dois dias de descanso é quase tão importante quanto pedalar!
Para quem usa a bicicleta todo dia, pode continuar pedalando nos dias de descanso, mas em ritmo bem leve (É leve mesmo, evite a tentação de forçar nas subidas).
Enfim, na minha opinião, para estar apto a concluir a série audax, não precisa de planilha de treinos ou de assessoria esportiva, embora essas coisas possam até ajudar: o principal é manter um bom volume de pedal, ou seja, pedalar com constância, distâncias razoáveis, durante um bom período de tempo.
Não adianta querer "treinar" para audax, aumentando o volume de pedal às vésperas do negócio. Não vai ser um ou dois pedais de 100 ou 200 km que vai dar aquela resiliência necessária ao pedal randonneur.
Ou seja, para se preparar para audax, é preciso incluir a bicicleta na rotina.
Uma das formas mais práticas de fazer isso é usar ela nos seus principais deslocamentos. Talvez isso explique porque tanta gente que faz e se encanta pelo audax usa a bicicleta primordialmente como meio de transporte.
Outra ideia que se mostrou útil na preparação para o 600 e que vale a pena compartilhar, foi tentar me adaptar, ainda em São Paulo, ao "fuso horário" de Boituva.
Explico: como a largada seria às quatro da matina, comecei, nas semanas que antecederam ao audax 600, a acordar bem cedo para pedalar.
O ápice dessa preparação foi acordar às 4 da manhã, numa quarta-feira e ir pedalar na ciclovia das capivaras, praticamente à noite e debaixo de chuva. Detalhe, após esse pedal, eu ainda iria trabalhar até as 22 da noite...
Foi sofrido, mas ajudou muito a não sentir tanto a largada na madrugada.
Mas para o 600, tão importante quanto a preparação física, foi o planejamento do tempo de prova.
Teríamos 40 horas para fazer o 600kms, com uma circunstância bastante favorável: a cada 200km iríamos retornar para o mesmo hotel.
Minha intenção era aproveitar isso ao máximo: não levar muita coisa na bicicleta, podendo usar o hotel como base para os materiais. Além disso, tentaria descansar ao final de cada 200km.
Então parti para a elaboração da planilha ETA (Estimated time of arrival ou tempo estimado de chegada).
Aprendi a fazer essas planilhas com as valiosas dicas do Sr.Richard. Vale MUITO a pena dar uma boa olhada nelas, aqui.
Outro site que me ajudou muito a utilizar essa planilha foi o do Flávio Augusto, o pedalooooonge . Muito bom, cheio de dicas ótimas!
Em resumo, copiei a planilha que o Sr. Richard usou no 600, em 2012 e, de olho nas dicas e relatos do Flávio, preenchi essa planilha com velocidades médias que imaginava que provavelmente iria fazer, bem como o tempo de parada que pretendia gastar nos PCS (pontos de controle) ou PAs (pontos de apoio).
Essa velocidade média pode ser estimada de modo bem realista observando-se a altimetria do trajeto, que sempre acaba sendo disponibilizada a cada brevet, no site do clube paulista, junto com as demais infos de cada audax.
Para o 600, analisei o trajeto e a altimetria que foram disponibilizados em três partes (aqui, aqui e aqui)
Montada a minha planilha de tempos (baixe aqui), ficou bem claro que o plano era o seguinte: Sair as 4 da manhã e tentar fazer os primeiros 200 km rápido o suficiente para ter um tempo para descansar de novo no hotel, lá pelas 15 hs da tarde.
Aí, após um cochilo, pretendia fazer a perna mais longa, de 235 km, chegando, de preferência antes das cinco da manhã.
Com isso, poderia dormir pelo menos até as oito da manhã e seguir para a última perna, de 166 km, com uma boa folga para concluir a brincadeira antes do tempo limite, às 20hs da noite.
De plano pronto, parti para Boituva com a minha esposa, a qual ia fazer o primeiro 200 km dela (desafio que ela concluiu brilhantemente, mas isso depois ela mesmo vem aqui contar).
Antes das 22hs estávamos dormindo, pois eu ia largar às 4 da matina para o 600 e ela às 7 para o 200 dela.
VISTORIA:
A parte mais legal dos audaxes eu ainda não falei: as amizades que você faz.
Antes da largada, os voluntários checam se você está com tudo certo para partir, é a famosa vistoria.
E nesse brevet a equipe de voluntários estava boa demais.
Na largada encontro Michele Mamede, Tati Saito, Artur Vieira e o Bruninho Frizzo. Amigos incríveis! Me auxiliaram demais nesse audax.
Logo de cara fui explorando o Bruno. Antes de dormir testei a minha lanterna reserva e percebi que ela não estava funcionando (sheisse!):
"- Bruno, faz assim, depois que eu largar, vai no meu quarto e tenta fazer aquela merda de lanterna funcionar, afinal só vou mesmo precisar usar duas lanternas na perna da noite!".
Eu sou folgado? Quase nada...
"- Ah, e aproveita e leva esses manguitos de volta, porque tá na cara que também não vou precisar até de noite!".
Sim, senhor, folgado mesmo!
(O Bruno fez o possível pela minha lanterna, mas o melhor que pôde fazer por mim foi pegar uma nova empresada, com ninguém menos que o Sr.Richard. Pense numa lanterna boa! Mas isso só fiquei sabendo à noite...)
LARGADA:
Tendo explorado bastante os meus amigos e cumprimentado vários outros amigos e participantes, estava com tudo pronto, já alinhado para a largada.
Rogério Polo faz o briefing, bem objetivo, mas extremamente útil.
Após, enfim, PARTIU:
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| Ready |
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| Set |
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| Go! |
Primeira parte - Boituva - Gramadão (200,6km)
Largamos e, embora tivesse planejado ir junto com o Raphael Giannini e com a Sílvia Oliveira, me empolguei com a largada, fui à frente e me perdi deles. Apesar da lua cheia, a visibilidade ainda não estava das melhores para tentar achar alguém.
Nos primeiros kms, o pedal foi num ritmo bem rápido.
Mas com cerca de 18 kms de prova, encontramos o acostamento da estrada em reformas. Nesse momento lembro que o Rogério nos alertou no briefing para ter muito cuidado nos trechos de acostamento em obras.
O alerta era procedente, em dado momento havia uma fenda de meio metro, rachando o acostamento em dois, estilo precipício.
Eita, que susto! Freio e paro totalmente a bike (não sei saltar e não era naquele momento que eu ia começar a treinar...).
Atravesso empurrando e fico ali um pouco, para alertar os demais ciclistas que estão vindo.
Nisso param Raphael e Sílvia. Vejo que mais ciclistas estão parando e alertando os que vem de trás.
Resolvo seguir com Rapha e Silvinha, batendo papo, falando abobrinhas, comentando desenhos animados e curtindo a madrugada.
Momento bem legal. Nós mantemos um ritmo mais compatível com esse início de prova, apreciando, do lado direito da estrada, a madrugada de lua cheia e do lado esquerdo, o lindo amanhecer.
É por esses momentos que vale a pena fazer audax.
Com 60 kms pedalados, fazemos a parada programada no Posto Siquelero.
Minha regra de ouro, para audax, na parte alimentar, é: "na dúvida, come!".
Segui minhas próprias regras e mandei dois pães de queijo, um pão de batata e um café. Poucas coisas são tão boas como um segundo café da manhã.
Nisso chega um rapaz com uma bicicleta inusitada, Nino Coutinho, figura das mais incríveis que vc encontra nos audaxes da vida.
Conversamos algumas bobagens e resolvo seguir com a Sílvia e o Rapha. Nino ia ficar mais um bocadinho por ali.
Voltamos nós três para a estrada e nesse momento nos damos conta que estamos na turma do fundão.
Resolvo dar uma leve apertada e saio um pouco mais à frente, chegando no PC 1 às 8:35. Dois minutos depois chegam Silvia e Rapha.
Percebo que estou 50 minutos mais rápido do que tinha planejado e lembro de ter pensado: "ou planejei tudo muito errado ou o ritmo geral desse audax está absurdamente forte...."
O que se sucedia é que havia um forte vento a nosso favor, nos empurrando nesses 100 kms iniciais.
Vento a favor é aquela coisa, é muito fácil de não perceber a existência dele, a vontade que dá é socar a bota e fazer médias ridículas de altas. Ou seja, é fácil se empolgar... e se cansar!
O problema é que tinha a volta, com vento contra, absurdamente contra. O vento, aliado a um calor forte, infelizmente viria a causar muitas desistências nesse brevet.
Eu fui administrando a luta contra o vento, junto com meus dois companheiros. Nas subidas eles iam mais forte que eu, mas nas descidas e nos poucos planos eu compensava.
Vantagem de ser baixo e gordo. O vento contra tem mais trabalho em me segurar.
Nessa toada sofrida, resolvemos fazer uma parada não programada, num pedágio para tomar banho de água de torneira (muito bom) e repor a água das garrafinhas.
Após, já na parada programada, no Siquelero II, encontro muitos ciclistas descansando. Parecia até que o PC final era ali!
Muita gente já parecia realmente quebrada pelo vento contra e pelo calor.
A minha vantagem em relação ao meu próprio planejamento tinha derretido no vento: ao invés de 50 minutos adiantado, eu estava 50 minutos atrasado.
Vendo tanto ciclista forte, quebrando de cansado, com apenas 144 kms de prova, o atraso que vinha se acumulando em relação à minha programação e as péssimas condições climáticas, começo a ter sérias dúvidas se eu ia ter mesmo condições de fechar esse 600...
Resolvo tomar um banho ali no Siquelero II. Cinco reais a chuveirada. Valeu cada centavo e cada micose provavelmente adquirida. Tomo uma coca gelada e bora lá, encarar mais vento.Às 15:14 finalmente chego no PC2, em Boituva. Fim da primeira etapa. Ufa.
Segunda parte - Boituva - Botucatu (234,6km)
Chego em Boituva meia hora atrasado em relação ao plano. Mas tudo que quero é um banho, comer e dormir um pouco.
Resolvo não pensar no atraso, e dar atendimento a essas necessidades. Vou para o quarto, banho rápido e sono de quinze minutos. Incrível, deu até para sonhar.
Acordei novo em folha!
No saguão do hotel, um belo macarrão com frango me esperava.
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| Macarrão com a galera! |
É como disse ao Charles Damasceno, Fasano é o kct!
Comida gourmet de verdade é aquela que se come depois de 200 kms pedalados, pode ser até quentinha, PF, o que for. Fica bom, muito bom.
Enrolações à parte, enfim, PARTIU! (de novo hehehe).
O trajeto de Boituva até Botucatu (na verdade, até o fim da Castelinho, voltávamos antes de chegar na cidade) já me era bem conhecido.
Gosto muito desse trajeto, tem uma altimetria que me favorece. Apesar da Serra de Botucatu, sempre desenvolvo bem nesse trecho, que foi o mesmo no 300 e no 400 desse ano.
A noite caiu logo e a lanterna do Sr. Richard mostrou que fazia jus à reputação do seu dono. Iluminava muito. Resolvo deixar ela como backup, ou seja, acendo apenas nas descidas, onde a velocidade maior exige uma melhor visibilidade.
No resto do tempo, mantenho apenas a Cateye ligada, alternando no modo alto (planos) e no modo baixo (subidas). Além dessas lanternas, usei uma headlamp, muito útil quando queria enxergar a planilha e o ciclo-computador.
A administração do consumo de energia das lanternas evita que o ciclista acabe apagado na estrada, situação que, além de extremamente perigosa, pode levar à desclassificação do audax.
Claro que tem que levar baterias reservas, porque mesmo economizando, elas podem acabar bem antes do término de um brevet 600.
Às 20hs chego no PC 3, o ótimo Rodostar, PC com melhor estrutura de todos. Ainda persistia o atraso de meia hora no planejamento. Pelo menos ele não aumentava, o que já estava muito bom.
Pergunto para o Paulo Zapella se ele pode verificar, via rádio, se minha esposa terminou o 200 dela.
Ele prontamente obtém a informação que sim, que ela fechou faltando 12 minutos para o tempo limite!!
Comemoro o fato como o Sr. Richard e volto feliz para a estrada, pensando na adrenalina que deve ter sido. Bacana demais!
Ao me aproximar da Serra de Botucatu, uma série de relâmpagos anunciam que a subida será debaixo d´água:
- "Pô, justo agora que as condições climáticas estavam ficando boas..."
Mas não tem jeito, a hora que tem que chover... chove. Simples assim. Continuo pedalando e constato que meu planejamento teve uma falha besta: esqueci de instalar meus para-lamas.
Paguei o preço pela falha. E tome água suja na cara, e nos olhos, e no peito, e nas costas, e na bunda...
Na subida da serra, resolvo apertar um pouco o passo:
- "Ah, são só sete kms de subida, vou ver até onde consigo chegar sem aliviar..."
Nessa brincadeira mental (e física), foram passando os kms da serra, 7, 6, 5...
Nos kms finais, aonde a inclinação aumenta, fiz força e fechei os 7.2 km da serra em 28:14 minutos. Cerca de 3 minutos mais rápido do que quando subi fazendo o audax 300 e 9 minutos mais rápido do que no 400.
Nada muito impressionante, é verdade, mas detalhe, nos anteriores não tinha pedalado ainda nem 100 km. E nesse eu já estava com 300 kms nas costas. Enfim, marcar um PR no Strava, nessas condições, foi bem legal.
Termino a serra me sentido bem. Já perto do pedágio, encontro o sensacional Caio Carlucci.
Fomos juntos na Castelinho, num ritmo bem bacana, forte mas sustentável (para mim foi forte, já para o Caio deve ter sido mais pra girinho hehehehe).
A chuva parou e seguimos conversando ao longo da castelinho. Logo chegamos no PC 4, às 23:07.
Pouco antes do PC 4 percebo que a chuva resolveu cobrar o seu preço. O cambio dianteiro parou de funcionar, travou total. Que m....
No PC 4 estavam Mamede e Artur:
-"Artur, ferrou cara!".
- "Ferrou nada Toddynho! Pára com isso!"
- "Ferrou o câmbio dianteiro!"
- "Dá aqui que eu resolvo, cabra."
PC bom aquele. Bom para ficar pouco tempo! Entre brigas entre os frequentadores, gravação do programa Polícia24hs e música ao vivo insuportavelmente irritante, a única coisa boa por lá era a presença do Artur e da Michele.
Bom, agora é só voltar!
A volta do PC 4 fiz basicamente sozinho. Só a chuva voltou para me fazer companhia.
E que chuva! A descida da serra de Botucatu foi pura cautela! Vai brincar naquilo com cantilevers molhados, vai!
Nessa cautela, cheguei de volta ao Rodoserv, agora PC 5, à 1h18 da matina.
Estava apenas seis minutos atrasado no meu planejamento! A parada rápida no PC 4 tinha tirado todo o atraso, que bom.
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As lentes do Zapella bem captaram o meu estado no PC5 |
Tomei a ótima sopa grátis e conversei com alguns clientes do Rodoserv, que estavam muito curiosos com tantos ciclistas ali, chegando e partindo em horário tão inusitado.
Eu ia intercalando a sopa com a explicação do que já havíamos pedalado e do que faltava ainda pedalar, e a reação de incredulidade do pessoal era muito engraçada!
Isso deu um belo up no meu humor, que já começava a dar sinais de querer azedar.
Saí dali pensando que o audax acaba dando bastante visibilidade e respeito ao ciclista de estrada.
Certamente as pessoas que eu conversei voltaram aos seus carros com uma visão diferente sobre aqueles ciclistas que vinham observando pelo caminho. Afinal de contas, muitos pareceram manifestar por nós uma admiração genuína:
-"Nossa, que coragem, parabéns", era o comentário mais freqüente do pessoal ali no Rodoserv.
O trajeto do PC 5 até o PC 6, em Boituva, foi provavelmente o mais sofrido. O que me fazia manter o foco era pensar no chuveiro, na cama e no café da manhã que me aguardavam. Nessa ordem.
E para essas coisas acontecerem, eu não podia ser muito lento. Mas o cansaço já fazia acumular um tempo de atraso na minha programação.
Precisava chegar o mais cedo possível, para ter tempo de dormir até as 8 horas, que era o horário que tinha estabelecido como margem de segurança para largar para a última perna, a de Piracicaba.
E com essa esperança na mente, sinto o pneu traseiro estranho.
Furo! Faltando só 10 kms para Boituva:
- "Olha só o meu banho, a minha cama e o meu café da manhã indo pro saco!", reclamei sozinho.
Reclamação desnecessária, a lâmpada de testa ajudou muito na troca do pneu à noite. Localizei rapidamente dois arames que tinham ficado espetados no pneu e atravessado a fita anti-furo. Não sei qual dos dois foi o responsável pelo furo, mas logicamente tirei os dois.
Gastei cerca de 18 minutos na troca e já estava de volta à estrada. Segue para Boituva.
Chego já amanhecendo, às 6h28.
Terceira parte - Boituva - Piracicaba (166,7km)
Eu cheguei uma hora e treze minutos atrasado em relação à planilha de tempos estimados.
Todavia, apesar do atraso em relação ao plano inicial, a situação era a seguinte: se não desse para dormir não seria possível seguir com segurança. Em outros termos, sem dormir seria DNF, fim de audax, eu não ia me arriscar não.
Largo a bicicleta com quem estava no PC e subo para o quarto.
Encontro minha esposa acordada, ainda animada, falando sobre o desafio dela. Eu queria conversar, mas não entedia nada do que ela falava! Estava muito cansado...
Pedi para ela ver com o pessoal do PC, se podiam dar um trato na bike, ver o câmbio dianteiro, que de novo estava travado.
(Depois fiquei sabendo que o Albert arrepiou nessa manutenção. Após, minha esposa completou fazendo uma bela limpeza na bike. Gente, muito obrigado, nesse audax fomos muito mimados por todos!)
Antes de deitar decidi que SE eu fosse para partir novamente, sairia às nove. Em alguns momentos temos simplesmente que dizer "dane-se a estratégia!"
(Outra importante lição aprendida com o Sr. Richard, lendo o relato dele sobre o LEL).
Tomei banho e dormi deliciosamente bem por cerca de uma hora e meia. Acordei, tomei café da manhã. Peguei a bike e, ah, quer saber?
Paaaarrrtiiiuuuuu..... (de novo, pela última e derradeira vez!)
Quando vi, a Silvia e o Rapha estavam largando comigo.
Começamos a conversar, falamos umas bobagens, passamos a rir e a impressão era que estávamos começando o audax agora, como se não tivéssemos passado ali há mais de 24 horas atrás e com mais de 400 kms pedalados! Sensação muito bizarra!
A estrada para Piracicaba era cheia de pirambas, mas, pelo menos na ida o tempo colaborou: nublado! Maravilha!
Com 50 kms de pedal nessa última perna, decido parar num PA (Restaurante Olho D'água). Tomo uma coca, encho as garafinhas.
Percebo que o pessoal está tenso em relação ao tempo limite para chegarmos em Piracicaba, no PC 7.
Todavia, eu noto que, apesar de tudo, esse trecho rendeu melhor que o esperado, me colocando novamente perto do horário planejado! Ou seja, tranqüilo, vai dar tempo.
Sobe, sobe, sobe, sobe, sobe, sobe, sobe, sobe e chega, finalmente, em Piracicaba! Achei que tinha errado o trajeto e estava indo para Campos do Jordão, quanta subida para Pira!
Perto da cidade, encontro o Rapha, que estava com o seu milésimo furo. Deixo uma câmara pra ele, que logo me alcança. Vamos juntos no trecho urbano para não errarmos o caminho.
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| Chegando em Piracicaba com o Rapha. |
Na frente do PC7 me resolve furar o pneu dianteiro. Bom, se é pra furar que seja sempre assim! Nem me dou ao trabalho, já entrego a bike diretamente ao Artur.
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| "Artur, dá mais uma força ae!" |
Lá me esperava minha esposa, que bacana! Converso com ela, como tudo que é comida que vejo pela frente, me entupo de coca-cola, descolo uma mangueira e tomo um belo banho no meio do posto de gasolina.
Descubro que a bateria do celular foi pro espaço. Paciência. Aqui vc vê o que consegui gravar no strava.
Bom, agora é só voltar. De novo!
Seguimos eu, o Rapha e a Sílvia, mais uma vez juntos na estrada. Só que quando o Rapha sofre um novo furo, sinto que se eu ficar muito tempo parado há o grande risco de começar a sentir, de uma vez, o sono e o cansaço acumulados durante todo o audax.
Como o carro da organização tinha parado com eles (o famoso Caveirão), decido seguir.
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| Caveirão! |
Sozinho novamente na estrada, resolvo apertar o passo.
Faltando uns 35 kms para Boituva, paro num posto, encho as caramanholas, que andavam perigosamente quase vazias, tomo outra coca e compro uns amendoins salgados.
O calor do fim da tarde é ótimo para dar câimbras pela falta de sódio, que vai todo embora na transpiração. Comer coisas salgadas é fundamental para evitar isso.
Perto do acesso para a Castelo, bate um vento contra retardado de forte. "Ah, seu sem-graça". Faço cinco kms num tempo ridículo de baixo:
- "Esse negócio não acaba não?", era o pensamento predominante.
Nessas horas mais difíceis, costumo pensar que o audax, quando acaba, acabou, já era. Ou seja, o legal do audax não é terminar ele, é o fazer, é o pedalar. Então nada de ficar torcendo para acabar (embora isso seja praticamente inevitável) mas tentar curtir, mesmo os momentos mais sofridos.
Já na Castelo, o vento vira à favor, o que dá uma boa ajuda. Em pouco tempo estava acessando a cidade:
- "Ufa, vai dar tempo, agora não tem erro, até a pé dá pra brevetar!"
Na chegada, aquela festa. Beijo da esposa, cerveja de trigo gelada, medalha, certificado e o título de Super Randonner.
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| Brevetado! |
Muito feliz por ter conseguido fechar um 600 tão duro.
Terminei às 18h53, com 38 horas e 51 minutos.
Dos 57 que largaram, apenas 26 concluíram. Sei que todos mereciam e se esforçaram ao limite, sem exceção. Mas, às vezes, as condições climáticas sabem ser especialmente cruéis, pegando muitos de surpresa.
Eu até imaginava que um dia poderia conseguir fechar a série audax, mas juro que não achava que seria nesse ano de 2013 e nem com brevets tão épicos.
Mas nada a gente consegue sozinho. Tenho tanta gente para agradecer que daria um post maior que esse. E como esse já está enorme, prefiro agradecer pessoalmente, que é muito mais legal!
Enfim, encerro torcendo para que a leitura tenha sido agradável e proveitosa.
Os relatos, além de servirem como uma ótima recordação para quem os escreve, podem eventualmente ter utilidade para os que pretendem fazer audax, e essa é uma das intenções do presente.
Que venha a série 2014, cheia de novos desafios, amizades, diversão e conquistas para todos nós.
Apenas pelo prazer de ir lá e de volta, outra vez...










Espetacular... Amei Sr. AUDAXIOSO... Super Randonneurs... Uhuuuuu... show... ♥
ResponderExcluirValeu Roberta!
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