quarta-feira, 24 de setembro de 2014

1º Brevet das Bandeiras (ou, por que fazer audax?)

                                  

E por que fazer um audax com uma distância que daria para ir de São Paulo à Brasília? Ou quase até Porto Alegre? 

E não apenas os 1.000kms de distância,  a altimetria também precisa ser levada em conta. Seriam cerca de 12.000mts de subidas acumuladas, o equivalente a escalar o Everest e o Pico das Bandeiras, partindo, por duas vezes, do nível do mar, conforme bem observado pelo Giuliano.

E por que tentar percorrer, em até 75 horas, essas grandezas bizarras com uma bicicleta? 



Já em Mogi Mirim, antes da largada, uma voz na minha mente martelava: "- Pra que você foi se meter nessa? Não tinha nada melhor para fazer nas suas férias?"

E isso que fazer o Brevet mil era meu objetivo desde o ano passado. Seria A preparação e O teste para o PBP, prova rainha de 1.200 kms que acontece a cada 4 anos, saindo de Paris, batendo em Brest e retornando a Paris.

Mas uma coisa é desejar fazer mil kms e outra totalmente diferente é ir lá e fazer. Meu receio maior não era deixar de concluir o brevet mas sim o de ter um acidente ou um problema qualquer de saúde. Convenhamos que em mil kms muita coisa pode acontecer....

E foi nesse momento que tive o primeiro contato com o maior monstro que habita as profundezas do brevet de mil kms. Monstro esse que penso ter colaborado com diversas desistências havidas na prova: o medo da insondável distância.

Pensa: você está lá, com seus 300kms pedalados, suado, cansado, com dores, depois de ter pedalado o dia inteiro, noite e parte da madrugada, eventualmente já com cãibras ou problemas estomacais e percebe que ainda faltam 700km para pedalar! SETECENTOS! SÓ MAIS SETECENTOS?! Tô fora.

Num brevet 600, com 300 kms percorridos você pensaria: Oba,  já foi metade!  Mas no mil.... no mil o odômetro é cruel em sua inércia.

Minha sorte foi ter mudado a forma de pensar, já na paradinha do almoço, com apenas 80 kms pedalados. Enquanto mastigava uma saborosa bisteca comecei a re-planejar meu pedal, pensando ele em termos de tempo e não de distância.

Não ia mais pedalar os insuperáveis 1.000 kms, mas sim pedalar até domingo, mais precisamente até no máximo às 11hs da manhã do domingo. Seriam então apenas três dias de pedal, dormindo na medida em que o horário de fechamento dos Pontos de Controle permitisse.

Afinal, eu não tinha controle sobre a velocidade com que eu iria conseguir percorrer os quilômetros. Mas era certo que os dias iriam passar no seu ritmo natural. Se às 11hs do domingo eu estivesse já em Mogi Mirim, no último PC, ótimo. Se não, paciência.

Caberia à mim a tarefa de pedalar por três dias e ponto, não mais me preocuparia com o monstro dos mil.

E pensando assim fui girando de modo constante, comendo bastante, me hidratando bem, dormindo quando necessário, cuidando de pedalar em pé para não detonar o traseiro, tentando resolver os inevitáveis problemas mecânicos que surgiam e prestando atenção na estrada e na rota. 

Pronto, monstro do mil resolvido. Ou pelo menos boa parte dele.

A outra parte da administração do mil só foi possível mantendo uma atitude positiva perante as dificuldades. E para isso, segue uma dica: durante o pedal, tente se cercar de pessoas otimistas. Caso contrário, melhor pedalar sozinho.

Exemplos: voltando de Garça, encontro um ciclista no empurra-bike morro acima. Pergunto se está tudo bem e ele, mal humorado, anuncia solenemente a sua desistência.
Eu argumento: "- Cara, vamos até Bauru, lá você toma um banho, come, dorme um pouco e pensa melhor sobre isso."

Ele me sorri com certo desprezo e me pergunta: "- Na boa, a quem você está enganando? Você acha mesmo que vai dar tempo de você concluir? Estamos super atrasados! Você não vai conseguir dormir o suficiente para seguir, esquece, já era!".

Senti um baque. Dei boa sorte ao rapaz e pedalei o mais rápido que pude para me afastar. Não penso que o ciclista em questão seja má pessoa, mas sim que o monstro do mil o devorou e deixou no lugar puro pessimismo. Fiquei um bom tempo para baixo após esse breve, mas quase devastador diálogo.

Por outro lado, se cercar de gente positiva fazia toda a diferença. E estava fácil de fazer isso nesses mil! Pessoas como a Silvia Oliveira, que com 700kms pedalados e faltando "apenas" 300km para o fim me grita, com um sorrisão de orelha à orelha:
"- TODDYNHO, tamo bem pra CA..LHO, nois vamô brevetá essa P...A!"

Partindo com Sílvia para Garça. Etapa de montanha!
Ou os irmãos Guarini, que deram show de solidariedade, me tirando de um perrengue de um raio quebrado. Depois chegaram até a tomar bronca minha, por terem voltado pelo menos uma centena de metros só porque eu tinha furado uma câmara e estava demorando a aparecer! E eles sempre mantendo o bom humor. Causos, piadas, relatos de viagens, conversas sobre família, sobre gatos malandros que já nascem de bigode, enfim tudo entrou na roda de conversa. Durante centenas de kms formamos um belo trio de pedal e certamente firmamos uma ótima amizade!

Fratellos Guarini e Eu

Vale também mencionar a organização, nas pessoas do Marco, do Richard, do Fausto, do Caio, do Kassai, do Rogério e da Roberta. Todos do clube colaboraram muito, mas só consegui concluir esse brevet com o auxílio dos aqui citados. Obrigado mesmo!

Richard Dunner resolvendo todos problemas

Show foi ver também aqueles que, apesar de abandonar a prova, não abandonaram o espírito esportivo, passando a nos auxiliar junto com a organização: de cabeça lembro do Paulo Gouveia e do Rodrigo Roux, mas haviam muitos outros nesse espírito..

Na parte final ainda tive o prazer de pedalar com o incrível Michael Fay. Como Mr. Fay não fala muito bem português, eu fui desenferrujando my bad english pelos últimos 70 kms de prova.
Com o tempo a conversa passou a fluir e fomos papeando sobre os mais diversos assuntos, desde os brevets dele na Koreia, suas maratonas, fixas, sobre commutar por São Paulo e das razões de se fazer audax, em especial um brevet tão longo....

Faltando uma hora para o horário limite e apenas uma dezena de quilometros a serem vencidos, a conversa estava tão boa que a gente (juro!) estava segurando os freios da bicicleta nas descidas, só para esticar um pouquinho mais o papo. O monstro dos mil estava definitivamente derrotado.

Eu e Michael a poucos metros da chegada. Já com saudades da estrada.

Aliás, um dos temas mais recorrentes nos bate papos durante a prova é a razão de estarmos ali, do por que, afinal de contas, alguém acorda de manhã, escova os dentes, dá bom dia e resolve percorrer mil quilômetros de bicicleta.

Nesse brevet ouvi muitas respostas interessantes a essa pergunta.

Para alguns, é como ir à guerra. É se vestir de espartano e partir pra cima. Não gosto muito dessa analogia, pois acho a guerra um negócio feio pra caramba.

Uma definição muito mais interessante me falou Raniel, que me disse que encara o audax como um retiro espiritual, pois passa boa parte do tempo refletindo e rezando, agradecendo e pedindo proteção divina.

Já eu encaro como uma travessia, uma jornada como é a própria vida.

Olha só: saímos de um ponto para o qual vamos voltar. No longo trajeto, que parece eterno, encontramos muitas pessoas boas e umas poucas nem tanto, sofremos, rimos, ajudamos e somos ajudados. Às vezes nos perdemos um pouco. Vemos paisagens incríveis e ficamos muito felizes de matar a fome e a sede, de dormir e nos aquecer.

Perto do fim, aquilo que parecia eterno vai acabando e, quando vemos, estamos segurando os dois freios na descida, só para esticar um pouquinho mais a conversa.

E, quando tudo finalmente acaba, somos surpreendidos encontrando quem a gente ama.

Então, por que fazer audax? Ora, faça e encontre a sua resposta!

Meu amor na chagada, melhor surpresa de todas!